Artigo Técnico

Projeto “Ligação Humano-Animal” no Campus de Saúde
da Misericórdia Vila Franca de Xira

Por Viviana Guerreiro Reis * | 3 setembro 2026

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Ao longo da existência humana, encontramos muitas referências sobre os benefícios dos animais não humanos para a saúde das pessoas. Assente no conhecimento que esta interação tem um impacto profundamente positivo, o Campus de Saúde da Misericórdia Vila Franca de Xira promoveu mais do que uma simples distração. Uma aposta no novo projeto “Ligação humano-animal”, que consiste numa interação dinâmica e recíproca, motivada pela satisfação de necessidades de saúde e de bem-estar de ambos.

Uma manhã especial com a Ginja e com o Freddie

A Unidade estava silenciosa, preenchida por conversas em voz baixa. Foi então que a porta se abriu para dar as boas-vindas à tutora Rita Caré, acompanhada pela Ginja e pelo Freddie. A Ginja, com a sua cauda a abanar, parecia perceber a importância da sua visita. Num canto, a Sra. Manuela, de 68 anos, olhava pela janela com o olhar vago. Era uma mulher de poucas palavras, acomodada à solidão. No entanto, quando a Ginja se aproximou, o inesperado aconteceu: a cadela encostou suavemente o seu focinho à mão da Sra. Manuela, que, primeiro hesitante, acabou por lhe fazer uma carícia na cabeça. O seu rosto, antes sério, abriu-se num sorriso genuíno, que não se via há muito.

Este simples gesto foi o suficiente. Muitos outros começaram a interagir, a partilhar histórias sobre os animais que tiveram e a dar festinhas nestes bichos ternurentos. A sala encheu-se de risos. Esta presença tornou-se num ponto de encontro, unindo as pessoas e estimulando a recordação de momentos felizes.

Projeto “Ligação Humano-Animal” Misericórdia VFX

Os benefícios de um encontro esporádico

A visita da Ginja e do Freddie é um exemplo do impacto positivo que a presença de animais pode ter. As interações com cães, gatos e outros animais trazem uma série de vantagens, mesmo quando não se enquadram em programas de terapia estruturados. A literatura científica aponta para efeitos diretos quando se interage com um animal.

Redução da tensão arterial e frequência cardíaca: Vários estudos na área da medicina cardiovascular mostram que o ato de interagir com um cão pode levar a uma diminuição significativa da tensão arterial (Vormbrock & Grossberg, 1988). De acordo com as diretrizes da American Heart Association (Levine et al., 2013), a simples ação de acariciar o animal ou falar com ele, estimula
o sistema nervoso parassimpático, promovendo o relaxamento do organismo.

Diminuição dos níveis de cortisol (hormona do stress): Pesquisas conduzidas no Centro de Investigação de Interação Humano-Animal revelam que a presença de um animal ajuda a reduzir os níveis de cortisol, o que está diretamente ligado a uma diminuição do stress e da ansiedade (Handlin et al., 2011). Alinhado a estes dados, investigadores da Universidade de Washington
demonstraram, de forma experimental, que o ato de acariciar cães, por apenas dez minutos, é suficiente para causar uma queda significativa e clinicamente mensurável nos níveis de cortisol (Pendry & Vandagriff, 2019).

Projeto “Ligação Humano-Animal” Misericórdia VFX

Recentemente, o Instituto de Conexão Humano-Animal da Universidade de Denver mapeou a complexidade biológica deste mecanismo, confirmando o papel ativo dos cães na regulação dos sistemas de resposta ao stress (Morris & Gandenberger, 2025).

  • Libertação de endorfinas e oxitocina: A interação com animais promove a libertação de substâncias neuroquímicas benéficas para o cérebro. A oxitocina, conhecida como “hormona do amor”, está diretamente associada ao aumento da sensação de afeto e confiança, enquanto as endorfinas (neurotransmissores que funcionam como analgésicos naturais do corpo), contribuem para o alívio da dor física e promovem o bem-estar (Odendaal & Meintjes, 2003). Neste âmbito, uma investigação conduzida por cientistas japoneses demonstrou que o contacto visual contínuo entre humanos e cães eleva substancialmente os níveis circulantes de oxitocina, sendo que os dados revelaram que quanto maior for a duração do olhar recíproco, mais acentuada é a libertação desta hormona no organismo (Nagasawa et al., 2015).
  • Combate à solidão e à depressão: Em ambientes institucionais, a solidão e o isolamento social podem configurar-se como graves problemas. Ensaios clínicos demonstram que as visitas programadas de animais proporcionam uma fonte crucial de companhia e afeto, mitigando significativamente os sentimentos de isolamento e os sintomas depressivos (Morrow & Thayer, 2012). Além disso, motiva a aproximação nas relações interpessoais e estimula a ativação de comportamentos de afeto (Wood et al., 2005). Esta rede de suporte e conexão informal, gerada pela convivência com o animal, revela-se determinante para a regulação emocional e para a preservação a longo prazo da saúde mental dos indivíduos em ambientes partilhados (Jendro et al., 2020).

Projeto “Ligação Humano-Animal” Misericórdia VFX

  • Estímulo cognitivo e memória: A interação com animais de companhia funciona como um importante estímulo neurocognitivo no quotidiano. Investigações recentes no âmbito da gerontologia demonstram que a convivência regular com cães em ambientes residenciais ou institucionais promove benefícios significativos na ativação da memória imediata e na reativação de canais de comunicação verbal (Swall et al., 2017). O contacto com o animal atua diretamente como um gatilho para o processo de reminiscência, permitindo a evocação e a verbalização espontânea de memórias guardadas sobre animais dos quais os residentes cuidaram o passado, o que se configura como um valioso e protetor exercício cognitivo (Filan & Llewellyn-Jones, 2006).
  • Promoção da interação social: Em ambientes institucionais, a presença de um animal atua diretamente como um catalisador social, oferecendo um estímulo neutro e positivo que serve como pretexto ideal para iniciar conversas espontâneas (Jendro et al., 2020). Além de fortalecer a dinâmica e a coesão entre pares, este fenómeno estende-se de forma orgânica à relação com as equipas de saúde; a convivência com o animal otimiza significativamente os canais de comunicação quotidianos e eleva os níveis de empatia mútua entre os utentes e os seus cuidadores (Swall et al., 2017).

* Viviana Guerreiro Reis é Psicóloga no Campus de Saúde da Misericórdia Vila Franca de Xira

Referências Bibliográficas (Formato APA 7ª Edição)

Filan, S. L., & Llewellyn-Jones, R. H. (2006). Animal-assisted therapy for dementia: A review of the literature. International Psychogeriatrics, 18(4), 597-611. doi.org 

Handlin, L., Hydbring-Sandberg, E., Nilsson, A., Ejdebäck, M., Jansson, A., & Uvnäs-Moberg, K. (2011). Short-term interaction between dogs and their owners: Effects on oxytocin, cortisol, and nsulin-like growth factor-1. BMC Women’s Health, 11(1), 1-13. https://doi.org/10.1186/1472-6874-11-24

Jendro, C., Watson, C., & Quigley, J. (2020). The effect of companion animals on social interactions  and communication patterns in institutionalized settings. Human-Animal Interactions, 8(2), 45-53.

Levine, G. N., Allen, K., Braun, L. T., Christian, H. E., Friedmann, E., Taubert, K. A., Thomas, S. A., & Ogata, T. (2013). Pet ownership and cardiovascular risk: A scientific statement from the American Heart Association. Circulation, 127(23), 2353-2363. https://doi.org/10.1161/CIR.0b013e31829201e1

Morris, K. N., & Gandenberger, J. (2025). The biological regulation of stress through human-animal interaction. Institute for Human-Animal Connection (IHAC), University of Denver.

Morrow, M., & Thayer, S. (2012). The effectiveness of pet therapy in improving depressive symptoms and cognitive function in residents of long-term nursing care facilities. Psychogeriatrics, 12(2), 120-125. doi.org

Nagasawa, M., Mitsui, S., En, S., Ohtani, N., Ohta, M., Sakuma, Y., Onaka, T., Mogi, K., & Kikusui, T. 2015). Oxytocin-gaze positive loop and the coevolution of human-dog bonds. Science, 348(6232), 333-336. doi.org

Odendaal, J. S., & Meintjes, R. A. (2003). Neurophysiological correlates of affiliative behavior between humans and dogs. The Veterinary Journal, 165(3), 296-301. doi.org

Pendry, P., & Vandagriff, J. L. (2019). Animal visitation program (AVP) reduces cortisol levels of university students: A randomized controlled trial. AERA Open, 5(3), 1-12. doi.org

Swall, A., Ebbeskog, B., Hagelin, C. L., & Fagerberg, I. (2017). Stepping out of the shadows of  ementia: Everyday experiences of living with a companion dog. International Journal of Qualitative studies on Health and Well-being, 12(1), Artigo 1286947. doi.org

Vormbrock, J. K., & Grossberg, J. M. (1988). Cardiovascular effects of human-pet dog interactions. Journal of Behavioral Medicine, 11(5), 509-517. doi.org

Wood, L., Giles-Corti, B., & Bulsara, M. (2005). The pet connection: Pets as a conduit for social capital and healthy communities. Social Science & Medicine, 61(6), 1159-1173. doi.org

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